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Paul Newman e Joanne Woodward

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 28.07.08

 

Hoje, só um desafio aos que gostam, como eu, de personagens. Vou só alinhavar este post sobre Paul Newman e Joanne Woodward, com um filme fascinante: The Long, Hot Summer.

Não sei se foi neste filme que primeiro se degladiaram como personagens. Se foi, foi o melhor início possível da magia que se seguiu. Quando os dois conversam no alpendre da casa senhorial, tudo é denso, intenso e enigmático! Esta intensidade é a da dimensão das personagens!

 

A seguir, irei avançar na magia do filme, pelo menos como eu o vi. E o que registei para sempre.

Passados tantos anos, o impacto visual, as personagens, os diálogos, ainda estão vivos num lugar onde só se guardam as coisas amadas. Devo ter visto este filme uma única vez, na televisão, na década de 70, talvez finais, na televisão. Nem sei se o filme é a preto e branco, mas foi assim que o vi. (Nota) E se voltar a vê-lo é assim que o quero ver.

 

Nos anos 50 e 60 surgiram obras-primas no cinema, irrepetíveis. Sobretudo as que transportaram para a linguagem do cinema a poesia dos textos literários. Aqui trata-se de uma novela de William Faulkner.

E é aqui, na linguagem do cinema, que as personagens melhor se movimentam! A fotografia, as sequências, os planos, dão-lhes a dimensão intemporal. As personagens são intemporais e este é o seu lugar mágico. Só nós vivemos num tempo-espaço definido e mutável.

 

Em The Long, Hot Summer... a densidade, a intensidade das emoções e conflitos, numa família sulista, numa mansão de amplos jardins e celeiros próximos. O patriarca manipulador que quer descendência - a eterna questão da imortalidade -, o filho mais velho que se sente desprezado, a filha relutante em casar e o empregado que vem desestabilizar o falso equilíbrio familiar.

E é Paul Newman e Joanne Woodward, o par mágico, único no cinema!

 

 

 

(Nota)Afinal, o filme é a cores. É engraçado pensar que todos os filmes que vi na televisão, que no nosso país só se tornou colorida em 80 (a sério!), os vi a preto e branco! É que os melhores filmes que vi foi na televisão, nos ciclos de cinema que programaram. Estes ciclos são cada vez mais raros, mas estamos na geração do DVD...

 

 

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publicado às 17:43

A solidão das pequenas comunidades

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.07.08

 

Quando falamos em solidão, geralmente associamo-la à grande cidade. Raramente a imaginamos numa pequena comunidade. Mas é igualmente terrível. Porque a manutenção do olhar do outro é a manutenção de um único papel. E não há nada mais limitador que um único papel, condicionado pelo olhar redutor (e imutável) do outro.

 

Rachel, Rachel. Aqui Paul Newman a dar-nos uma perspectiva do universo feminino, da sensibilidade feminina. Conseguir captar essa  sensação de ter sido presa numa ratoeira, numa rotina onde a vida perdeu todo o sabor e paixão. E não ver qualquer saída.

Rachel é uma professora a entrar na meia-idade, naquela idade de transição em que se perderam os sonhos da adolescência e em que se acorda para uma rotina cada vez mais desinteressante. Rachel acorda todos os dias e fica a imaginar-se morta. Fim. Não ter de se levantar. Não haver nada que a entusiasme, que a anime a encarar outro dia igual ao anterior.

O seu papel, tecido ao longo dos anos desde uma infância a viver tão perto da morte (profissão do pai), tão perto que o pai a quer proteger da morte, e ao proteger da morte protege-a da própria vida. Sim, a morte como companhia constante da sua infância...

 

Rachel vive agora com a mãe. O seu papel, de eterna filha, de subalterna na própria casa, esse peso insuportável de viver uma vida que não é a sua, uma vida em segunda mão, numa espécie de transição prolongada, tão prolongada que ficou parada, encravada, num tempo-espaço sem vida nem amor lá dentro.

Rachel não é essa mulher que vê no olhar crítico, frio e egoísta da mãe, às vezes malévolo, para ferir e manipular. Rachel também não é essa mulher solitária, carente e vulnerável que vê no olhar do colega da escola. E igualmente não é a mulher frágil, carinhosa e próxima que vê no olhar da sua melhor amiga.

Rachel quer libertar-se dessa ratoeira de um tempo-espaço, de um papel que não lhe serve, que só serviu para se proteger da vida e do amor, sequência natural de uma infância marcada pela proximidade da morte, a paragem do tempo que foi deixando instalar-se por pena e cobardia perante uma mãe egocêntrica e limitada.

 

Só quando enfrenta essa possibilidade de uma vida própria e de um amor possível, da própria possibilidade da maternidade, é que Rachel acorda a sua energia vital.

Dois acontecimentos desencadeiam esse despertar irreversível. Um, a experiência do amor com um dos amigos de infância, que não via há anos, o gémeo sobrevivente da sua infância, a descoberta de uma outra solidão semelhante à sua, mas com outra estrutrura - a incapacidade de amar. Outro, a possibilidade da maternidade, uma vida dentro de si, alguma coisa viva!

Mas é também a única saída para escapar à alternativa natural de mulheres solitárias numa pequena comunidade: a histeria religiosa, as experiências emocionais (e de substituição do afecto autónomo), vividas em grupo e dirigidas por um Pregador manipulador, essa experiência traumática após o convite da amiga.

 

Rachel quer amar e ser amada. Aproximar-se da vida, do amor possível. E é depois da decepção da falsa gravidez que decide partir. Cena impressionante, do diálogo com a mãe, a sua afirmação como uma mulher autónoma, que quebra uma rotina e um papel que não lhe servem, e todo o passado familiar, do olhar instalado e imutável dos outros. Pela primeira vez, passa a protagonista da sua história.O futuro é incerto e é assim que deve ser. E nesse incerto desconhecido, tudo é possível, encontros, relacionamentos, afectos. A vida, afinal.

 

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publicado às 17:14

É possível resistir à linguagem do poder

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.07.08

 

O que mais impressiona em The Little Foxes é a linguagem do poder e da manipulação, perfeitamente visível num clã sulista, os Hubbard, comandados pela irmã (magnífica Bette Davies).

Esta mulher dominadora tentará domesticar a filha como pensa ter domesticado o marido. Pura ilusão, este homem suave e de saúde frágil segue valores sólidos, dos quais não irá abdicar nunca. Sim, ao marido terá mesmo de o neutralizar.

É que para conseguir levar a cabo os seus planos ambiciosos, esta mulher utiliza todos os recursos possíveis da paleta: insinua-se, seduz, manipula e recorre à chantagem. É assim que consegue dominar o seu pequeno mundo: os irmãos, o sobrinho e, por arrastamento, a cunhada. O grande negócio está prestes a ser conseguido. O acesso à alta sociedade da grande cidade também.

 

É certo que a filha (comovente Teresa Wright) já mimetiza, de certa forma, os seus tiques de snobismo e de arrogância. Mas no final serão os valores do pai e do namorado que prevalecem, sobre a influência materna. Sim, a filha resiste-lhe no final e escolhe o caminho da vida real, dos afectos e do respeito pelos outros.

Impressionante confronto entre uma Bette Davies subitamente solitária, subitamente assustada, no cimo da escadaria, e uma comovente Teresa Wright em baixo, no "hall", a olhar para cima, tão jovem, tão doce, tão magoada, e no entanto, tão forte, a despedir-se da mãe.

Trata-se da opção pela vida, pela liberdade, pela autonomia. Aqui vemos o perfeito contraste com a linguagem do poder, da manipulação, da dependência. É esta, a meu ver, a ideia central do filme. O mais forte é, no final de contas, o mais fraco; o que pensávamos mais fraco é afinal, o mais forte.

 

Mas não nos iludamos: a linguagem do poder, na sua voracidade insaciável, faz estragos. O amado pai da nossa jovem jaz, morto, lá em cima, no seu quarto. E por pouco também ela própria se podia ter deixado enredar na terrível influência materna e ter-se transformado numa sua segunda versão, anulando todas as possibilidades de crescer, de se autonomizar, de se afirmar de forma saudável, de amar e ser amada.

Na cena final vemo-la com o namorado, pelo pátio exterior da casa, na noite chuvosa. Numa das janelas, o rosto impressionante da mãe, a vê-los afastar-se.

 

 

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publicado às 15:13

Orson Welles, o génio excessivo

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 08.07.08

 

Coloquei Orson Welles no plano do génio, porque é assim que o vejo. Embora uma genialidade que veio acompanhada de um narcisismo exacerbado e de um perfeccionismo obsessivo. Avassaladores, os seus filmes The Magnificent Ambersons, Citizen Kane...

Não é só o seu magnífico domínio da linguagem cinematográfica, em que é único. É a forma heróica, dramática, que imprimiu às histórias familiares, à construção de impérios, à vida de pequenas comunidades. Com Orson Welles, a vida deixa a sua dimensão simples e insignificante para se elevar ao plano dos grandes dramas históricos. Talvez Orson Welles tenha vivido sempre nesse plano shakespeariano e isso vê-se na forma como cria.

Dele escolhi Touch of Evil porque aqui Orson Welles dá um certo espaço a uma liberdade que lembra a vida real e não um palco. Aqui os planos são ainda mais ousados, mais livres, mais soltos. Em arte, mil vezes a liberdade ainda que desajeitada, do que a perfeição que é sempre opressiva.

 

Em Touch of Evil Orson Welles pega no lado mais sombrio da alma humana: corrupção, racismo, violência, abuso de poder, chantagem, manipulação. Aqui não há lugar para ilusões ou fantasias. Tudo é revelado, desde a bestialidade amoral do polícia corrupto até à estupidez rasteira dos jovens delinquentes.

Touch of Evil é também um retrato cruel de uma América invisível à vista desarmada, obscura e violenta. Mas também da espécie humana, quando vista no plano do instinto primário e visceral. E para o revelar, só mesmo uma linguagem excessiva e brutal.

Mas é Orson Welles. E Orson Welles é sempre excessivo.

 

 

 

E também aqui, n' O homem que sabia demasiadoo sinistro Hank Quinlan.

 

 

 

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publicado às 18:30

Quando o homem da notícia se apaixona pela protagonista da notícia

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.07.08

 

It happened one night. A rapariga mimada que foge do papá protector para casar com um playboy e o jornalista ambicioso que quer contar a história.

E é a partir desta história que Frank Capra nos mostra a América dos anos 30, a América da Depressão, a América das enormes desigualdades sociais e do "Salve-se Quem Puder", do sensacionalismo, do desenrascanço, do oportunismo, mas também da solidariedade, sensibilidade, simplicidade e autenticidade.

Só por aquela cena do autocarro de longo curso, vale a pena ver o filme! Aqui temos, de certo modo, o povo americano musical e solidário, que enfrenta adversidades com alegria e humor. Esta cena é das mais fascinantes que eu já vi em cinema!

 

Mas muitas outras cenas, algumas comoventes, outras hilariantes:

As cenas do motel, onde aparecem nítidas as diferenças culturais e de comportamento social, os diferentes modos de lidar com o mundo e a realidade. A timidez e snobismo da rapariga a contrastar com a descontracção e auto-confiança do jornalista.

Dormir ao relento, cena poética e reveladora de um novo sentimento a surgir e a surpreendê-los.

A travessia do rio, com a rapariga às costas do jornalista.

A pedir boleia, esta talvez a mais conhecida.

A conversa do jornalista com o pai da noiva, para ver "como se parece o amor quando é triunfante".

E, claro!, a clássica fuga da noiva, véu ao vento, do seu próprio casamento.

 

E é bem verdade que aqui "o amor triunfa" com direito a lua-de-mel romântica, no motel que tinham partilhado ao longo desta aventura.

 

 

Também aqui, a navegar...

 

 

 

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publicado às 11:02


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